A corrida contra o tempo: prevenção e combate às drogas em Cascavel

Embora a Campanha Junho Branco tenha chegado ao seu término, a luta contra as drogas segue firme e constante. Em Cascavel, a abordagem adotada tem se desviado da mera repressão ao tráfico, investindo em uma estratégia que especialistas consideram mais eficaz: prevenir o primeiro contato com substâncias ilícitas.

O mês de junho se encerrou. As faixas foram retiradas, as blitzes educativas concluídas e a campanha saiu das plataformas digitais. Contudo, os problemas que motivaram um mês de intenso engajamento permanecem intactos.

Diariamente, muitas famílias enfrentam as consequências da dependência química. Crianças são expostas precocemente ao álcool e ao tabaco, enquanto adolescentes têm acesso facilitado a diversas substâncias, muitas vezes disfarçadas em produtos que parecem inofensivos, como os cigarros eletrônicos. Por esse motivo, os profissionais que atuam na prevenção reforçam uma mensagem essencial: o combate às drogas não deve se restringir a um único mês do ano.

“Precisamos agir preventivamente e disseminar informações. As drogas sempre estiveram presentes e continuarão existindo. Nosso desafio é evitar que esse primeiro contato ocorra”, afirma Rafael Tortato, presidente do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas (Comad), em declaração ao Jornal Hoje.

A mudança de foco tem guiado as políticas públicas em Cascavel desde 2018 e ganhou ainda mais impulso com a implementação da Lei Municipal do Junho Branco. Conforme informações da Secretaria Municipal de Políticas sobre Drogas (Semud), nesta edição da campanha foram realizadas dez ações, envolvendo 19 instituições e atingindo cerca de 1,5 mil pessoas. Durante esse período, o município também observou um aumento aproximado de 10% na demanda por serviços especializados em prevenção e tratamento.

Para Tortato, o que realmente importa é o significado por trás desses números.

“Conseguimos destacar essa causa ao longo de um mês inteiro e demonstrar à população que ninguém está sozinho. Aqueles que lidam com problemas relacionados ao álcool e outras drogas, assim como seus familiares, podem encontrar suporte em Cascavel.”


Uma abordagem além da repressão

Por muitos anos, o combate às drogas foi quase exclusivamente associado ao aumento do policiamento e à repressão do tráfico. Embora essa abordagem ainda seja necessária, atualmente ela não é vista como suficiente.

Segundo Rafael Tortato, tratar a dependência química apenas como uma questão de segurança pública impede uma compreensão mais ampla do problema.

“A repressão é importante, mas sozinha não resolve nada. É fundamental falarmos sobre prevenção, além de oferecer informação, acolhimento e oportunidades. A dependência química é uma doença que requer um atendimento humanizado.”

Essa perspectiva orienta programas desenvolvidos em colaboração entre diversas secretarias municipais. O conceito é simples: quanto mais oportunidades uma criança ou adolescente tiver antes do contato com drogas, menores serão as chances de desenvolver dependência no futuro.


A atenção começa aos 12 anos

Um levantamento realizado pelo CAPS Álcool e Drogas de Cascavel ajuda a entender por que os esforços estão focados na infância e adolescência. De acordo com dados mencionados por Rafael Tortato, a idade média do primeiro contato com substâncias entre os jovens atendidos é apenas 12 anos.

Esse é um tempo muito precoce.

“Nosso foco será sempre alcançar crianças e adolescentes, além das suas famílias. Prevenir significa proporcionar educação, atividades esportivas, culturais e promover carinho, atenção e qualidade de vida”, declara o presidente do Comad, que possui vasta experiência na Semud.

Na prática, isso envolve expandir espaços para atividades esportivas, fortalecer iniciativas culturais e estabelecer programas permanentes nas escolas. Entre eles estão o Patrulha Amiga — desenvolvido desde 2018 pela Guarda Municipal em parceria com a Secretaria de Educação e Semud — além dos projetos Jovens Mais Fortes e Ser Feliz Sem Drogas.

Diferente das palestras convencionais, muitas ações utilizam atividades esportivas, oficinas de grafite, batalhas de rap, break dance e rodas de conversa para estimular reflexões sobre escolhas pessoais e sonhos futuros.

“O envolvimento com substâncias pode atrasar todos os planos desses jovens. Nossa meta é mostrar que existem outros caminhos possíveis.”


O inimigo dentro do lar

No âmbito da prevenção, Rafael Tortato destaca um aspecto frequentemente esquecido: o primeiro contato com as drogas nem sempre ocorre nas ruas; muitas vezes acontece dentro da própria casa.

Álcool e cigarro continuam sendo as substâncias mais presentes no ambiente familiar e despertam a curiosidade nas crianças cada vez mais cedo.

“A família desempenha um papel crucial nesse contexto. Muitas vezes as crianças conhecem o álcool e o tabaco dentro do lar ao ver seus próprios familiares consumindo essas substâncias. Quanto mais precoce for esse contato maior será o risco de dependência no futuro.”

Ele também ressalta um fenômeno recente: os dispositivos eletrônicos para fumar — conhecidos como vapes ou pods — mudaram a forma como os adolescentes percebem o tabaco. Com sabores adocicados e design moderno, eles escondem riscos significativos à saúde.

“A indústria transformou um produto antes caracterizado por seu cheiro forte em algo saboroso. Isso se tornou uma epidemia entre adolescentes enquanto muitas famílias ainda subestimam o problema.”


Uma rede ativa durante todo o ano

Ainda que Junho Branco concentre várias ações educativas ao longo do mês dedicado à campanha, a estrutura de atendimento permanece disponível durante todo o ano.

As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) continuam sendo a porta de entrada para encaminhamentos a serviços especializados como CAPS AD e SIM Paraná. O município também mantém grupos de apoio familiar e clínicas credenciadas junto às comunidades terapêuticas além dos programas Vida Nova e Resgate Pela Vida — uma iniciativa intersetorial voltada para acolher pessoas em situação de rua afetadas pela dependência química severa.

A Prefeitura de Cascavel informa que além do aumento mencionado anteriormente na procura por atendimento durante a campanha houve também demandas espontâneas contínuas através das equipes sociais responsáveis por abordagens comunitárias.

Para Rafael Tortato essa rede faz com que Cascavel se torne uma referência regional embora desafios ainda permaneçam.

“É necessário mais investimento financeiro junto a novas políticas públicas; essa responsabilidade vai além da Secretaria Municipal de Políticas sobre Drogas abrangendo educação saúde assistência social cultura esporte bem como toda sociedade”, complementa ele.


Uma semente cultivada diariamente

Pela experiência adquirida após anos observando histórias marcadas pela dependência recaídas recomeços Rafael Tortato evita soluções simplistas afirmando que não há respostas imediatas para este problema complexo. A prevenção deve ser vista como uma semente: precisa ser plantada cultivada fortalecida até gerar resultados concretos na sociedade.

Suas palavras têm peso especial pois derivam da sua própria vivência pessoal: antes de assumir a presidência do Comad ele enfrentou seus próprios desafios relacionados à dependência química lidou com dívidas perdeu oportunidades precisou reconstruir sua trajetória pessoal transformando sua experiência em propósito social.

“As drogas sempre existirão mas nosso dever é intervir antes disso acontecer precisamos abrir espaço para conversas orientar as famílias fortalecer instituições educacionais religiosas grupos comunitários mostrando onde buscar ajuda necessária quando toda sociedade assume essa responsabilidade previne deixa de ser apenas uma campanha tornando-se compromisso coletivo”, conclui ele.

No final das contas esta talvez seja a mensagem central deixada pelo Junho Branco: a prevenção transcende o término da campanha ela acontece cotidianamente em cada diálogo dentro dos lares nas salas de aula nos treinos esportivos nas oportunidades oferecidas às crianças antes que elas tenham seu primeiro contato com as drogas.

Sugestão editorial: Recomendo alterar o título principal para algo mais direto como “Quem chega primeiro: a droga ou a oportunidade? A prevenção é fundamental na luta contra dependência química em Cascavel.”

A postagem “Quem chega primeiro: a droga ou a oportunidade? O desafio da prevenção em Cascavel” foi originalmente publicada em O Paraná – Jornal de Fato.

By Vida em Curitiba

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