Desde julho, Jeferson Stica, que transporta frango da JBS para o Chile, e sua esposa Gracieli estão presos no complexo aduaneiro de Uspallata, enfrentando um dos fechamentos mais prolongados nos últimos tempos na fronteira.
O caminhão de Jeferson Stica, um motorista natural de Lapa, está imobilizado há 27 dias no complexo aduaneiro de Uspallata, localizado na Argentina e próximo à divisa com o Chile. Ele viaja acompanhado da esposa Gracieli, transportando uma carga de frango da JBS para a transportadora Veneza, que tem como destino final Santiago, a capital chilena. Para alcançar seu objetivo, a dupla precisaria cruzar a Cordilheira dos Andes; entretanto, a única rota disponível, o Sistema Cristo Redentor–Los Libertadores, permanece fechada devido à neve acumulada.
Esse fechamento teve início em meados de julho e já é considerado por autoridades argentinas e chilenas como um dos mais extensos registrados nos últimos anos — perdendo apenas para a interrupção ocorrida no inverno de 2023, quando a estrada ficou bloqueada por 26 dias. Segundo relatos locais, motoristas e despachantes afirmam que não havia uma situação semelhante há cerca de 60 anos.
A rotina no complexo aduaneiro se transformou em um verdadeiro desafio diário. “Estamos aqui na Aduana… temos que nos alimentar com o que conseguimos preparar na caixa de cozinha do caminhão e dormir nele também… A temperatura é sempre negativa, está bastante complicado”, descreve Jeferson. A infraestrutura local é precária: não há banheiros ou água quente disponíveis nas proximidades — o posto da YPF é o único suporte acessível e fica a uma certa distância.
Apesar das adversidades climáticas e da incerteza sobre a reabertura da fronteira, ele encontra consolo na companhia da esposa. “Graças a Deus, minha esposa Gracieli está comigo aqui… isso torna tudo mais tranquilo”, menciona o motorista. Ele também reconhece o apoio fornecido pela transportadora durante esse período difícil.
O aspecto mais difícil para Jeferson não é apenas o frio intenso — mas sim as expectativas frustradas. “A previsão é de que reabram a estrada na próxima semana, mas toda semana dizem isso sem que haja realmente uma liberação”, lamenta. Ele acredita que entre 15 e 25 caminhões da Lapa estão parados na mesma fronteira, embora não haja um número oficial. Cada dia aguardando do lado chileno representa cerca de 600 dólares em prejuízo por caminhão.
Além das questões climáticas, existe também uma questão política: segundo Jeferson, o Chile possui 14 máquinas prontas para ajudar na limpeza da estrada do lado argentino, mas essa oferta foi recusada. Enquanto isso, as quatro máquinas disponíveis na Argentina enfrentam escassez de combustível.
A situação vivida por Jeferson não é um caso isolado — ela reflete uma realidade comum entre os motoristas de carga. Geralmente, esses profissionais passam mais tempo longe de casa do que com suas famílias: suas vidas são organizadas em torno de escalas e chamadas por vídeo em datas comemorativas que frequentemente são celebradas com atraso. Além disso, enfrentam riscos constantes como assaltos em trechos isolados durante a noite; problemas mecânicos podem resultar em longas esperas sem assistência; e as exigências fiscais demandam atenção redobrada em relação à documentação e prazos de entrega que nem sempre correspondem às condições das estradas. A maioria desses motoristas é remunerada por frete ou quilômetro rodado — enquanto estão parados como Jeferson agora nos Andes, eles não geram receita mesmo com despesas fixas acumulando.
Essa combinação de solidão, riscos físicos e pressão financeira sustenta uma cadeia logística crucial para o Brasil: alimentação nas mesas brasileiras, insumos para indústrias e produtos nas prateleiras dos mercados. Cada carreta imobilizada na fronteira argentina representa também salários pendentes e contratos que podem ser cobrados independentemente das condições meteorológicas adversas.
Enquanto aguardam pela liberação da fronteira, resta apenas esperar — e registrar essa experiência. “Vai ser uma boa matéria para vocês no jornal; para nós também é importante deixar tudo documentado”, afirma Jeferson ao completar quase quatro semanas dentro da cabine do caminhão rodeado pela neve ao lado de Gracieli enquanto a carga de frango ainda aguarda passagem rumo a Santiago.
SERVIÇO
Aqueles interessados em acompanhar a espera de Jeferson e Gracieli na fronteira — além de torcer pela liberação do Sistema Cristo Redentor–Los Libertadores — podem seguir as atualizações diretamente da estrada:
Instagram: @casaldaveneza
