
Obra pública costuma começar com discursos, máquinas perfiladas e a promessa de que tudo estará diferente. Para a população, porém, a largada traz uma pergunta menos festiva: será que termina no prazo? Em Cascavel, onde intervenções recentes acumularam atrasos e transtornos, cada novo canteiro chega acompanhado também de desconfiança, além da comemoração da obra saindo do papel.
O desafio do Poder Público não se limita a planejar, orçar e licitar. Depois da ordem de serviço, começa outra corrida: garantir que a empresa cumpra o contrato e que o cronograma não vire uma longa novela. Chuva, redes subterrâneas e ajustes de projeto podem interferir. Mas, para quem mora ao lado da poeira, justificativa nenhuma diminui o desconforto de ver a obra avançar devagar ou até parar.
A cautela dos moradores não nasceu do nada. O asfaltamento das principais ruas do Bairro Lago Azul virou uma novela de mais de cinco anos, com capítulos demais e final adiado. Os novos abrigos do transporte coletivo também entraram para a memória da cidade como estruturas que ficaram pelo caminho. São lembranças que explicam o “pé atrás”: quanto maior a obra, o valor e a cerimônia de lançamento, maior a vigilância sobre prazo, preço e qualidade.
Trincheira do Cascavel Velho: a obra mais simbólica
A Trincheira do Cascavel Velho é a mais simbólica das intervenções recentes na Capital do Oeste. Reivindicada durante anos, a ligação oferece uma alternativa ao Trevo da Portal, hoje praticamente obrigatório para milhares de moradores da Região Sul cruzarem a BR-277. O trajeto diário exige paciência e atenção redobrada em um ponto marcado pelo fluxo intenso e pelo histórico de acidentes. É o tipo de travessia em que o motorista respira fundo, olha para os lados (quando olha) e parece pensar: “segura, que eu vou”.
A obra começou em 3 de agosto, mas quem passa pelo local encontra poucas mudanças visíveis. A ausência, em determinados momentos, de máquinas e trabalhadores alimenta dúvidas entre moradores que imaginavam encontrar um canteiro em plena atividade. Ainda é cedo para decretar atraso, já que sequer houve a primeira medição, mas o histórico recomenda não esperar o calendário apertar para começar a fazer perguntas.
Fiscalização da comunidade e investimento
Líder comunitário do Bairro Cascavel Velho, Anderson Imperator é um dos “olheiros” da obra. Para ele, os transtornos serão compensados pela melhoria da mobilidade, pelo alívio no Trevo da Portal e pela nova ligação com o Lago Municipal.
“Depois de pronto os moradores terão acesso direto ao Lago Municipal, não precisando fazer uma volta tão grande para chegar ao Lago. Eu creio que durante o período de obra vai ter transtornos sim. Temos uma equipe de lideranças comunitárias do Cascavel Velho, Itália e do Presidente atuante nessa fiscalização e que vão acompanhar a obra até o fim, devido à importância para a comunidade de ter uma fiscalização firme que exige que ela seja executada dentro dos padrões e no tempo determinado para a sua execução”, relatou.
Segundo Anderson, o grupo reúne representantes da sociedade civil organizada e dos poderes Legislativo e Executivo. A intenção é acompanhar o serviço, cobrar transparência e evitar que eventuais problemas sejam percebidos apenas quando o prazo estiver perto do fim. “É importante, portanto estamos acompanhando”, reiterou.
O projeto prevê um viaduto sobre a BR-277, ligando a Rua Munique à Avenida Waldemar Casagrande, nas proximidades do Lago Municipal, além de alças de acesso e duplicação da rodovia no trecho. A iluminação também será renovada. A expectativa é beneficiar diretamente mais de 65 mil moradores, com mais segurança para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.
R$ 21,15 milhões
Executada pela Construbes Engenharia, a obra foi contratada pela Prefeitura por R$ 21,15 milhões. O projeto foi elaborado pelo IPC (Instituto de Planejamento de Cascavel) e o prazo de execução é de 18 meses. É tempo suficiente para mudar a ligação entre duas regiões da cidade — desde que os 18 meses sejam de trabalho e não de esperança.
Fiscalização contra o velho roteiro
O secretário municipal de Serviços e Obras Públicas, Severino Folador, afirma que Trincheira, Olavo Bilac e Lago Azul estão entre as obras mais emblemáticas da cidade. “A principal é a trincheira, porque depois de pronta trará mais segurança a passagem de todos os moradores da Região Sul, é a Trincheira que já estava no papel há vários anos”, disse ele.
A cobrança não é detalhe burocrático. A população já aprendeu que placa não pavimenta rua, solenidade não instala tubulação e anúncio não substitui entrega. Fiscalizar desde o início ajuda a impedir que problemas previsíveis ganhem, mais tarde, o conveniente nome de surpresa.
Drenagem da Olavo Bilac e pavimentação do Lago Azul
Na Região Central, a obra de drenagem da Rua Olavo Bilac chegou a 55% de execução e, segundo o Município, segue dentro do cronograma. Os trabalhos começaram em abril e têm prazo de oito meses, com conclusão prevista para o fim de dezembro. O investimento é de R$ 3,7 milhões, com recursos do Fonplata e contrapartida municipal.
A intervenção busca resolver um problema antigo no encontro das águas que descem pela região da Avenida Brasil. A alta vazão provoca acúmulos e aumenta o risco de alagamentos em ruas e imóveis. “Estamos colocando manilhas bem maiores para conseguir drenar essa água e não acumular na rua ou nas casas”, relatou Folador.
O novo emissário será instalado entre a Rua Minas Gerais e a Avenida Brasil, com intervenções também nas ruas Mato Grosso e Paraná. As equipes trabalham agora na Rua Paraná, entre as ruas Vicente Machado e Olavo Bilac, com pistas interditadas.
É uma obra que aparece — e incomoda. Poeira, bloqueios e acessos prejudicados atingem moradores e comerciantes. O projeto prevê ainda recapeamento e nova sinalização. O avanço traz algum alívio, mas dezembro está perto e a preocupação dos moradores e usuários diários das vias acompanha os percentuais.
Lago Azul busca o capítulo final
No Lago Azul, a pergunta dos moradores é direta: cadê a empresa? O lançamento da nova etapa de pavimentação, em 22 de agosto, teve até a presença do governador Ratinho Junior. Depois da solenidade, porém, a movimentação discreta provocou a sensação de que o anúncio havia corrido mais depressa do que a obra e o receio da “reprise” já reapareceu.
A empresa está no bairro, mas ainda na fase de levantamentos. As equipes fazem o mapeamento das ruas e identificam os pontos que exigem adequações antes do início da pavimentação. A base operacional foi instalada no salão comunitário. O trabalho preliminar envolve redes de água e esgoto e a estrutura de energia elétrica, com necessidade de alinhamento com Sanepar e Copel.
O engenheiro responsável afirma que o diagnóstico antecipado é necessário para evitar paralisações depois que as máquinas entrarem nas ruas. “Analisamos os problemas e vemos como vamos resolver, para que a gente inicie a obra e não tenha que parar no meio dela”, falou.
Explicação técnica
A explicação é técnica, mas, num bairro que esperou mais de cinco anos, o silêncio das máquinas soa alto. O morador não vê mapas ou reuniões; vê a rua como sempre esteve. Onde já houve demora, falta de informação alimenta a desconfiança.
O projeto elaborado pelo IPC prevê a reurbanização de 17 ruas, com 10,69 quilômetros de pavimentação e 90.391,20 metros quadrados de área pavimentada. O investimento contratado é de R$ 32,175 milhões: R$ 30 milhões em recursos não reembolsáveis do Tesouro do Estado e R$ 2,175 milhões de contrapartida do Município. A TEMA Infraestrutura, de Minas Gerais, executará pavimentação, terraplenagem, drenagem, urbanização, sinalização e iluminação. O prazo é de até 480 dias.
Antes e durante a pavimentação, será necessário retirar 127 postes e mais de 200 árvores, que deverão ser compensadas com o plantio em dobro. A Sanepar também trabalha na implantação de 16 mil metros de rede de esgoto. Cerca de 3 mil metros já foram executados, e a conclusão está prevista para junho de 2027. O projeto inclui ainda duas estações elevatórias.
Folador reconhece que o conjunto exige coordenação entre Município, empreiteira e concessionárias. “Acompanhamos e fiscalizamos e além de tudo, esperamos receber estas obras dentro do prazo acordado com as empresas”, desabafou Folador.
Olhos atentos e relógio ligado
O receio dos cascavelenses não significa oposição às melhorias. Ao contrário: nasce justamente da urgência de vê-las prontas. Quem enfrenta o Trevo da Portal quer segurança; quem convive com alagamentos na área central quer drenagem; quem mora no Lago Azul quer finalmente deixar para trás a poeira e o barro. O problema nunca foi a obra. É a possibilidade de ela começar com data para terminar e acabar sem data para ser entregue.
Por isso, a reta final precisa ser pensada desde a largada. Fiscalização permanente, informação clara e resposta rápida aos imprevistos serão decisivas. Cascavel já conhece o roteiro em que a inauguração do canteiro é pontual e a conclusão chega atrasada. Desta vez, a população espera uma história diferente — com menos capítulos, nenhum intervalo de anos e final feliz dentro do prazo.
O post Três grandes obras e a velha pergunta: Vai demorar muito? apareceu primeiro em O Paraná – Jornal de Fato.
